Dia das Mulheres: o que há para celebrar?

 


Ontem foi o Dia das Mulheres. Mas, diante do que temos visto no Brasil, é impossível falar sobre relacionamentos sem encarar uma realidade dura: vivemos em um país onde mulheres continuam sendo mortas todos os dias.

Os índices de feminicídio seguem alarmantes. Em uma sociedade que sufoca e mata mulheres, falar de amor, de desejo ou de relações afetivas torna-se quase um paradoxo. Como desejar quando a base das relações ainda é marcada por assimetrias profundas? Quando a dependência é, muitas vezes, forçada e sustentada por estruturas sociais que colocam as mulheres em posição de vulnerabilidade?

Em muitos casos, a vida de uma mulher parece valer menos. Recentemente, um cachorro foi vítima de crueldade por adolescentes, um fato terrível, sem dúvida. Mas a comoção gerada nas redes foi maior do que aquela que costuma acompanhar as milhares de mulheres vítimas de feminicídios todos os anos. Isso nos obriga a perguntar: o que estamos naturalizando enquanto sociedade?

Vivemos um momento em que cada vez mais mulheres dizem que preferem não se relacionar com homens. Esse movimento tem ganhado visibilidade nas redes sociais, e não é difícil entender por quê. Ao mesmo tempo em que essa decisão se torna pública, viralizam também vídeos ensinando “o que fazer se ela disser não”. Em muitos casos, a resposta masculina ao “não” continua sendo violência, seja na forma de golpes, agressões ou facadas.

Isso não é acaso. É mais uma camada do machismo estrutural que atravessa gerações e aparece de forma cada vez mais explícita entre jovens e adultos.

Não há como falar de relacionamentos sem trazer essas questões à tona. Há também um problema profundo na forma como o amor romântico foi historicamente centralizado na vida das mulheres, enquanto muitos homens continuam a objetificá-las. Mesmo quando dizem “não”, muitas mulheres são punidas por isso.

Recentemente, uma jovem foi esfaqueada no rosto após recusar um pedido de namoro. Em outro caso brutal, uma freira de 82 anos foi estuprada e morta dentro de um convento no Paraná. São histórias que nos atravessam e expõem a gravidade da violência de gênero no país.

Diante disso, o Dia das Mulheres não é, para muitas, um dia de celebração. Talvez a única alegria possível seja estar viva.

E isso, por si só, já diz muito sobre o país em que vivemos.

Por  @sexologamirllyobengbioh

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