Amar não é um risco: desconstruindo o estigma de viver com HIV


 Escutei ontem uma frase que me atravessou de um jeito difícil de esquecer:

“ninguém vai me querer… eu sou uma mulher doente.”

Falo aqui como sexóloga, com muitos anos de escuta clínica, acompanhando histórias de dor, de reconstrução e também de redescoberta do próprio corpo e do próprio valor. E posso te dizer com muita responsabilidade: essa fala não nasce do vírus, ela nasce do estigma.

Quando alguém recebe o diagnóstico de HIV ou de AIDS, não é só o corpo que é impactado. Existe um abalo profundo na forma como essa pessoa passa a se enxergar, como se de repente sua identidade inteira fosse reduzida a uma condição de saúde. Como se deixasse de ser mulher, homem, sujeito de desejo, para se tornar apenas “alguém com HIV”.

E isso é uma violência simbólica muito grande.

Porque o que ainda circula socialmente é uma ideia antiga, ultrapassada e profundamente cruel: a de que pessoas vivendo com HIV não são desejáveis, não são seguras, não são dignas de amor. E essa narrativa, repetida ao longo de anos, vai sendo introjetada. Aos poucos, a pessoa começa a acreditar que seu corpo se tornou um risco, que seu afeto se tornou um problema, que sua presença precisa ser justificada.

Mas vamos falar da realidade de hoje, não da década de 80. Hoje, uma pessoa que vive com HIV e faz o tratamento corretamente pode ter uma vida absolutamente funcional e plena. A terapia antirretroviral permite que a carga viral se torne indetectável — e isso muda tudo. Muda o prognóstico, muda a qualidade de vida e muda, inclusive, a dinâmica das relações afetivo-sexuais. Existe um consenso científico sólido: quando a carga viral está indetectável, não há transmissão sexual do vírus.

Isso significa que estamos falando de pessoas que podem amar, se relacionar, ter vida sexual ativa, constituir família, trabalhar, estudar, planejar o futuro.

Mas por que, então, a dor daquela frase ainda existe? Porque o sofrimento não está apenas na condição clínica. Ele está nas crenças.

Crenças que dizem:

“meu corpo é perigoso”

“ninguém vai querer se envolver comigo”

“eu preciso esconder quem eu sou”

“eu perdi meu valor”

E muitas vezes essas crenças não vêm só de fora, elas se instalam dentro. É o que chamamos de estigma internalizado. A pessoa passa a se olhar com os olhos do preconceito que sofreu. E isso impacta diretamente a autoestima, o desejo, a capacidade de se vincular e até a forma como ela ocupa o próprio corpo.

Na clínica, eu vejo com frequência pessoas que não deixaram de desejar, mas deixaram de se permitir ser desejadas. Que evitam relações não por falta de vontade, mas por medo da rejeição. Que se antecipam ao abandono e, por isso, se afastam antes mesmo de tentar.

E aqui é um ponto fundamental: o HIV não torna ninguém indigno de amor. A sexualidade de uma pessoa vivendo com HIV não é interrompida. Ela pode, sim, precisar ser mais consciente, mais dialogada, mais informada. Relações saudáveis, aliás, se constroem justamente com comunicação, responsabilidade e respeito mútuo.

Existe vida afetiva depois do diagnóstico. Mas para que isso aconteça, é preciso também um trabalho interno de reconstrução: questionar as crenças que foram impostas, elaborar o impacto emocional do diagnóstico, resgatar a própria identidade para além da doença.

E também é preciso falar de responsabilidade coletiva.

Porque enquanto a sociedade continuar tratando pessoas com HIV como “menos”, “perigosas” ou “indesejáveis”, vamos continuar produzindo sofrimento desnecessário. Informação salva, mas o acolhimento também.

Ser atravessada por um vírus não define quem você é. Não apaga sua história.

Não reduz sua potência de amar e ser amada. Aquela frase que eu ouvi ontem não fala de uma verdade, ela fala de uma ferida. E feridas, quando encontram cuidado, escuta e informação, podem cicatrizar.

O que precisamos mudar não é a possibilidade de amar dessas pessoas.

É a forma como o mundo olha para elas e, muitas vezes, como elas aprenderam a olhar para si mesmas.

Por  @sexologamirllyobengbioh

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