Nos últimos dias, fomos surpreendidos por uma decisão do TJMG no estado de Minas Gerais que reconheceu o vínculo entre um homem adulto e uma menina como entidade familiar. O episódio reacende um debate urgente sobre os limites da proteção à infância e à adolescência e sobre a necessidade de reafirmarmos o direito de crianças e jovens ao desenvolvimento saudável.
Crianças e adolescentes não são pais nem mães, portanto, não precisam viver como adultos, namorar precocemente ou assumir responsabilidades emocionais que não correspondem à sua fase de desenvolvimento. Cada etapa da vida possui tarefas específicas, necessidades próprias e tempos que devem ser respeitados.
A infância e a adolescência são períodos fundamentais para brincar, experimentar, descobrir interesses, construir identidade e desenvolver autonomia emocional. Quando experiências próprias da vida adulta são antecipadas, o processo natural de desenvolvimento pode ser prejudicado, gerando inseguranças, dependência emocional e dificuldades nas relações futuras.
O psicólogo Erik Erikson, referência nos estudos do desenvolvimento humano, explica que cada fase da vida envolve tarefas psicológicas específicas. A adolescência, particularmente, é marcada pela construção da identidade. Antes de estabelecer vínculos amorosos complexos, o jovem precisa descobrir quem é, quais são seus valores e como deseja se posicionar no mundo.
Além disso, a adolescência é um período de grande intensidade emocional. Trata-se de uma fase de profundas transformações cognitivas, sociais e afetivas, em que a regulação das emoções ainda está em desenvolvimento. Essa intensidade tende a dificultar a construção de relações afetivas estáveis, especialmente quando ainda não há maturidade suficiente para lidar com frustrações, limites e responsabilidades emocionais.
Há diversos motivos que reforçam a importância de não incentivar o namoro precoce. Entre eles, destaca-se o fato de que a autonomia emocional ainda está em formação, o que aumenta o risco de dependência afetiva e de sofrimento intenso diante de conflitos ou rejeições. Soma-se a isso a necessidade de priorizar o desenvolvimento pessoal, os estudos, as amizades, os interesses e os projetos de vida. Muitos relacionamentos nessa fase também surgem mais por pressão social do grupo do que por uma escolha consciente e madura.
Outro aspecto importante é o direito ao tempo de brincar e experimentar o mundo. Infância e adolescência são fases únicas, fundamentais para o desenvolvimento social, cognitivo e emocional, e não devem ser substituídas por demandas próprias da vida adulta.
Nesse contexto, cabe aos pais e responsáveis exercer uma função de cuidado, proteção e orientação. Incentivar relacionamentos precoces ou tratar os filhos como um problema do qual é preciso se livrar revela uma inversão da responsabilidade parental. Crianças e adolescentes precisam de presença, diálogo e suporte emocional para se desenvolverem de forma saudável.
A parentalidade é uma responsabilidade contínua. Quando não há desejo de assumir esse papel, existem formas responsáveis de planejamento familiar. O que não pode ocorrer é a transferência das consequências de decisões adultas para crianças e adolescentes, comprometendo seu desenvolvimento e seu futuro.
Contudo, orientar não significa proibir de maneira autoritária. A educação baseada no diálogo tende a ser mais eficaz do que a imposição. Em vez de discursos proibicionistas, pais podem explicar que o cuidado envolve proteger o tempo de desenvolvimento, permitindo que o jovem construa sua identidade, fortaleça sua autonomia e adquira maturidade emocional antes de assumir vínculos afetivos mais complexos.
Educar, nesse sentido, não é acelerar a vida adulta, mas garantir que cada fase seja vivida plenamente. Mais do que incentivar relacionamentos precoces, é necessário incentivar a autenticidade, o autoconhecimento, a autonomia e o desenvolvimento saudável. Crescer não é correr para a vida adulta. Crescer é viver plenamente cada etapa do desenvolvimento com cuidado, proteção e dignidade.
Por @sexologamirllyobengbioh
