Uma vez uma amiga psicanalista me disse algo que nunca esqueci:
“Não quero que meu marido me veja como mãe. Quero que ele me veja como mulher.”
A partir disso, ela estabeleceu algo muito simples, e profundamente simbólico: o filho tinha o quarto dele, e o casal tinha o quarto do casal. Um espaço para encontro, conversas difíceis, troca afetiva e, claro, intimidade.
Como sexóloga de casais, observo frequentemente o movimento oposto. Muitas vezes, os filhos são colocados no meio da relação conjugal e, em alguns casos, isso acontece de forma inconsciente ou até intencional, como estratégia para evitar a intimidade sexual. Precisamos falar sobre isso.
Casamentos são feitos de muitas dimensões: acordos, diálogo, cuidado com os filhos, construção de projetos comuns, e também sexualidade. Quando a vida sexual não vai bem, o caminho não é o silêncio, a evasão ou a reorganização da casa para evitar o encontro. O caminho é a conversa.
Colocar as cartas na mesa. Perguntar. Escutar.
Por que não está acontecendo?
O que podemos construir juntos?
O que cada um está sentindo?
A evitação pode partir de qualquer um dos parceiros. Pode estar relacionada a dificuldades sexuais, como ejaculação precoce, dor, baixo desejo, fases do ciclo de vida, luto, sobrecarga emocional, transtornos mentais, questões hormonais ou condições de saúde como hipertensão. Nunca suponha, pergunte.
A ausência persistente de intimidade não deve ser naturalizada. Muitas vezes é um sintoma relacional que merece cuidado e, quando necessário, acompanhamento terapêutico.
Sobre crianças na cama dos pais: sim, eventualmente pode acontecer. O medo faz parte da infância, e acolher também é parentalidade. Mas a presença constante dos pais como única fonte de segurança pode dificultar o desenvolvimento da autonomia da criança. A independência emocional também se constrói quando ela aprende que os pais não estarão sempre ali durante a noite, e que ela pode lidar com suas próprias angústias.
Preservar o espaço do casal não é egoísmo.
É cuidado com a relação.
É cuidado com a família.
Porque filhos crescem.
E o que permanece, ou não, é o vínculo entre duas pessoas que escolheram caminhar juntas.
Por @sexologamirllyobengbioh
