Erotismo em Cativeiro: Tabu, Imaginação e os Efeitos da Educação Sexual Repressiva na Vida Adulta


 No livro Sexo no Cativeiro, Esther Perel nos convida a compreender que o agente central do erotismo é a imaginação humana. O desejo não nasce apenas do corpo, mas da capacidade simbólica de fantasiar, criar sentidos e sustentar o jogo entre proximidade e mistério. No entanto, para muitas pessoas, o projeto de autodescoberta sexual é profundamente prejudicado por mensagens parentais que induzem medo, culpa e desconfiança em relação ao sexo.

Essa dinâmica pode ser compreendida à luz de Totem e Tabu, de Sigmund Freud. Na obra, Freud descreve como as sociedades organizam a sexualidade a partir de proibições fundamentais, transformando o desejo em algo que precisa ser regulado, controlado e, muitas vezes, silenciado. O tabu não elimina o desejo ele o reprime, desloca e o mantém ativo no inconsciente, frequentemente acompanhado de culpa e ansiedade.

Na experiência de muitas mulheres adultas, essa lógica se manifesta por meio de uma educação sexual ultrarrígida, atravessada por ideais como a conservação da virgindade e a pureza feminina como valor moral e social. O corpo da mulher torna-se um território de vigilância, onde o desejo é interditado antes mesmo de poder ser simbolizado. Assim, a imaginação erótica, que Perel aponta como central para o erotismo, é substituída por autocensura.

Para os homens, o percurso tende a ser distinto, mas não menos marcado pelo tabu. Enquanto às mulheres é exigida a contenção, aos homens é permitida a transgressão. Historicamente, muitos foram introduzidos à sexualidade em bordeis; hoje, esse papel é ocupado, em grande medida, pela pornografia

 Freud já indicava que o tabu produz não apenas repressão, mas também formas autorizadas de transgressão, criando uma divisão entre desejo, afeto e responsabilidade.

O efeito dessas construções aparece de forma evidente no casamento. Mulheres que passaram a vida inteira aprendendo que sexo é perigoso, sujo ou vergonhoso são, subitamente, convocadas a desejar sem que suas crenças tenham sido elaboradas. O tabu não se dissolve com o matrimônio. Como resultado, observam-se rigidez, bloqueios do desejo e dificuldades de acesso ao prazer, não por falta de amor, mas porque o erotismo foi mantido em cativeiro psíquico.

Esses padrões são frequentemente produzidos em criações autoritárias e verticalizadas, nas quais crianças e adolescentes não têm espaço para perguntar, elaborar dúvidas ou construir uma relação simbólica saudável com o corpo e o prazer. Ainda em Totem e Tabu, Freud aponta que a interdição sem elaboração gera culpa difusa e conflitos inconscientes. Na vida contemporânea, isso se traduz em adultos que não sabem nomear seus desejos, seus limites ou seus direitos.

Alguns adolescentes, diante do silêncio e da repressão, acabam buscando respostas sozinhos, tornando-se mais vulneráveis à exploração, à desinformação e a relações abusivas. Outros internalizam o tabu de forma rígida, levando essa repressão para a vida adulta e conjugal.

Falar de educação sexual na infância e na adolescência é, portanto, falar da possibilidade de romper com a lógica do tabu não elaborado. Trata-se de formar adultos mais conscientes, capazes de integrar desejo, responsabilidade e ética. Adultos que compreendem que têm direito ao prazer e ao gozo, mas também reconhecem que a liberdade sexual exige maturidade emocional e responsabilidade afetiva e reprodutiva.

Entre Freud e Perel, encontramos um ponto comum: o desejo não desaparece quando é proibido. Ele se desloca, se fragmenta ou se empobrece. Libertar o erotismo do cativeiro não significa ausência de limites, mas a construção de uma sexualidade que não seja governada pelo medo, pela culpa ou pelo silêncio, e sim pela consciência, pelo diálogo e pela responsabilidade.  

Por @sexologamirllyobengbioh

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